12 de outubro de 2016

da vida simples

Todos os dias vamos para a escola a pé. Saímos de casa as duas e fazemos a rua entre a nossa casa e a escola. Pouco mais de 300 metros feitos em 5 minutos. Vamos de mãos dadas, observando o começar do dia e conversando sobre o que calha. Assim que passamos o primeiro prédio, vimos sair os dois irmãos que vão para o ciclo, sempre a reclamar um com o outro porque vão atrasados. No ciclo entra-se mais cedo que na escola primária! Depois dobramos a esquina e vamos passando por tudo o que já sabemos que nos espera. A primeira coisa que a esquina nos traz é a temperatura que está, hoje veio o frio da chuva bater-nos na cara e disseste logo que o Verão já não voltava "não é, mãe?", e lembrámo-nos de quando está tanto frio que dobramos a esquina e a cara congela, ou de quando está a chover muito e os guarda-chuvas se dobram e partem sempre no dobrar da esquina. Logo depois, as árvores chamam a tua atenção com a sua lenta transformação, as folhas já estão cor de vinho e a chuva fê-las cair durante a noite. Também se vê a confusão que a chuva provocou nos quintais das pessoas, que ainda estão no ritmo pouco precavido do bom tempo. Ficou tudo à chuva e está tudo molhado. Logo a seguir, aparece o primeiro vizinho a quem dizemos bom dia. Um senhor que sai de casa para esperar a carrinha do pão, que já se ouve buzinar na rua de baixo, e que traz no bolso um punhado de ração seca para os gatos vadios que circulam por ali. Mete a ração no cimo do muro que me dá pela cintura a mim e pelos ombros a ti, garantindo que o cão da segunda vizinha a quem dizemos bom dia não tem ideias tristes. Em Setembro, no primeiro dia do nosso caminho para a escola a vizinha sorriu mais que o habitual e, além do bom dia, disse um espantado "ela cresceu tanto no Verão!". Fazes uma festa apressada ao cão e seguimos. Normalmente, aqui comentamos que não estamos atrasadas. Sabemo-lo porque ainda não vemos a carrinha do pão. Ali, em frente da casa da senhora do cão, é a segunda paragem da rua e quando a carrinha do pão lá está quer dizer que estamos em maus lençóis. Baixamos a cabeça porque as árvores estão a pedir uma poda já há uns tempos e dizemos bom dia ao terceiro vizinho, que ficou doente há pouco tempo. Está de cadeira de rodas, mas sai para o meio da estrada e com a ajuda de uma muleta já se põe de pé a espreitar se vê a carrinha do pão. Comentas-me que o senhor está melhor, porque antes nunca saia da cadeira de rodas e ia pela estrada buscar o pão à paragem que fica no largo, a primeira da rua. Do outro lado, o cão que não se vê, ladra da casa ao lado da casa que está em obras. A obra vai bem avançada e nós fazemos apostas sobre quando estará pronta. Eu aposto na Primavera, mas tu achas que os senhores fazem tanto barulho que isso só pode querer dizer que os donos vão lá passar o Natal. Eu explico-te todos os dias de quem acho que é a casa e tu acabas sempre a dizer "ah, pois é! Já me tinhas dito", mas nunca te lembras quando eu começo a dizer. Chegamos ao largo antes da escola e começas as despedidas. Nem sempre te apetece que eu te leve mesmo até ao portão e eu deixo que controles essa decisão, feita mais de sinais e menos de palavras. Hoje, deste-me o guarda-chuva e um beijinho, mas depois disseste "vens até ao portão?". Claro que vou.
Entramos na praceta e combinamos como vai ser o dia após o fim da escola, mais um beijinho antes do portão e fico ali a ver-te entrar pela escola. Não levamos relógio, nem precisamos dele, o senhor da carrinha do pão diz-nos se estamos atrasadas. Quando faço o caminho de regresso, lá está ele na primeira paragem e lá estão os clientes do costume. Ele vê-me e diz-me bom dia lá do fundo. Comprei-lhe pão uma vez, mas ele vê-me todos os dias. Não lhe compro pão mais vezes, porque saio apenas com a chave de casa para te ir levar à escola e ver a vida do bairro a acontecer enquanto cresces. Um dia, isto tudo vai acabar. Ou deixar de ser assim. Mas agora, este caminho que faço todos os dias de manhã, no lento correr da vida, tornam-me parte do que é agora.








27 de setembro de 2016

a minha cabeça nunca está aqui

Viajo tanto quanto consigo e para onde consigo. Nalgumas vezes sozinha e, sempre que possível, com os meus filhos. Viajar é perceber quem somos. É encontrar nas diferenças culturais, razões de vida que são unas. Ver os outros, para nos vermos a nós e com isso percebermos que fazemos todos parte de uma coisa maior chamada humanidade. Parece-me que a tolerância existe quando se aceita o outro como igual, sabendo-o diferente. E esta noção de igualdade surge com o conhecimento de que as pessoas de outros países sentem, pensam e fazem como nós. Este 'como nós' ganha cada vez mais significado em mim. Viajar oferece-me um mundo mais lúcido, um ego menor e a capacidade de me encontrar nas pequenas coisas. Viajar oferece-me respostas, mas também, e sempre, mais e novas perguntas de descoberta.
E esta coisa de passear vai ganhando espaço. Dias seguidos. Gosto muito de o fazer na versão pelintra. Dá-me uma sensação de total desprendimento de tudo, de liberdade absoluta não saber onde, nem como, nem a que horas. Ir indo. Tenho, por isso, cada vez mais dificuldade em passear com quem seja, porque este nada que tem um logo se vê, não é para todos. Quando deixo os dias seguirem, acontecem coisas inimagináveis e vivemos momentos únicos, pela surpresa e descoberta que dão. Hoje em dia as pessoas gostam de tudo programado. A hora, o lugar, o hotel, o almoço e o jantar. Tomar banho, dormir, comer, sentar na esplanada. E eu ando muito contra a corrente. Eu gosto de tudo desprogramado. Sem hora, sem lugar, comer quando tenho fome, dormir onde se encontrar e quando nos apetecer. Faço muito isso aos domingos, que é o único dia que conseguimos existir pelas nossas leis. Por isso, raramente almoçamos ou jantamos, no sentido formal da coisa, e só percebemos que o dia acabou porque anoitece.

Ora, claro que quando penso nalgum passeio ou viagem, sou atraída pela aventura do sem programa prévio. Apenas um destino ou um objectivo. E essa coisa dos objectivos está-se a tornar numa obsessão, porque eu adoro perseguir imagens ou pontos no mapa que, por uma razão ou outra, soube que existiam. A primeira imagem que me lembro de perseguir, foi a Ilha de Brac, na Croácia. Vi a fotografia na Expo de Hannover, quando andava a fazer um interrail e só descansei quando tirei a fotografia na ponta da ilha. Esta ponta:

















Gostava de mostrar a foto de mim lá, mas não sei onde está. Na altura, em 2000, foi até bastante aventuroso chegar até lá. A guerra civil da Jugoslávia ainda estava mais ou menos a acontecer e quando decidimos ir nao sabíamos bem como o fazer. Em Zagreb encontrámos um ambiente muito difícil e já na costa da Croácia, descobrimos um lugar a querer sobreviver. Mas valeu tudo.

Continuei sempre a perseguir imagens ou nomes de lugares e a isso juntei a minha paixão por conduzir estrada fora. Haverá alguma coisa melhor que ter a liberdade de conduzir estrada fora? Este é o meu luxo.O carro. Amigos da caminhada e da bicicleta, eu não estou nessa. Um carro não cansa, transporta tudo e serve de abrigo, quando falta o sítio para dormir. E eu adoro conduzir. Falta-me concretizar a autocaravana/carrinha adaptada pela estrada fora. Um dia.

Entre os muitos passeios ou viagens que já fiz sozinha, ou com os miúdos, há um lugar especial para o GrossGlockner, na Áustria. Aliás, essa viagem a dar a volta à Áustria ficou no nosso coração. Grossglockner é o ponto mais alto da Áustria. Tem 3797 m de altitude, pelo que é a segunda montanha mais proeminente dos Alpes, depois do Monte Branco. É tudo inacreditável lá e quando li num livro que era considerada uma das 10 estradas mais bonitas do mundo, percebi que tinha que a fazer. Só está aberta entre Maio e Setembro e termina num glaciar. Na foto, a Mia com 9 anos, põe-se a jeito para o registo. Não consegui encontrar mais imagens, mas esta mostra uma parte muito gira da estrada.













Depois desta, e antes desta também, já temos tantas na nossa lista! Tenho planos de as ir contando aqui, para as guardar com o detalhe que merecem!

Agora ando com duas novas obsessões. Era só uma, mas entretanto esbarrei na outra e não pode ser. Ter duas obsessões em países diferentes. Eu preciso resolver isto.

Øresundbron
É uma ponte/túnel que liga Copenhaga, na Dinamarca, a Malmo, na Suécia. Tem de 8 quilómetros de ponte e 4 quilómetros de túnel pelo canal Flint. É absolutamente essencial eu ir lá.










Passage du Gois
Aqui mesmo ao pé de nós, em França, ao lado de Nantes. É uma estrada na baía de Bourgneuf que une a Ilha de Noirmoutier ao continente. É famosa porque a estrada fica submersa pelo mar conforme as marés e apenas é transitável durante a maré baixa, ficando inundada duas vezes por dia durante a maré cheia. How cool is that?










Agora só preciso encaixar isto tudo na minha agenda. Wish me luck! 

13 de setembro de 2016

depois ::: after

***Scroll down for the English version***

Escondi-me. Fugi e escondi-me. Em casa. As pessoas andam a ver de mim e eu continuo cada vez mais escondida e não sei o que faça. Ensaio respostas. Evasivas. Ensaio respostas que não são mais que bocados vazios cheios de palavras que não dizem nada. Silêncio. A primeira vez que me sentei no café perto de Skaramagas com a Andreia, falei dos refugiados e ela disse-me que ia haver um dia que eu ia parar de lhes chamar refugiados. Voltei da Grécia sem refugiados. Voltei com nomes. Pessoas. E agora, que faço? Fui-me embora a querer falar sobre refugiados e volto cheia de pessoas? Não posso contar a vida deles. Dos meus amigos. Nem o nome deles me apetece dizer. Apetece-me guardá-los a todos e não dizer nada aos que esperam por me ouvir. Posso falar dos campos, das squats, dos voluntários, das organizações. Posso falar do que falta. Do desespero. Da vida que passa cheia de nada. Do amanhã que não existe. Da normalidade com que o inacreditável me é relatado. Do difícil que é olhar novamente para a vida que existe ao meu redor. Da certeza que tenho que nenhuma palavra que eu diga será suficiente para fazer entender uma realidade que só vivida pode ser compreendida. Sentida é uma melhor palavra. Posso. Devo. Repetir até à exaustão que são pessoas como nós. São pessoas como nós. São pessoas como nós. São pessoas como nós.

SÃO PESSOAS COMO NÓS.

Não. Não são coitadinhos. Não. Não devemos ter pena. Não, eles não precisam de misericórdia. Precisam de respeito. Da devolução da sua dignidade. E, se calhar por isso, é importante que a palavra refugiados permaneça. É importante que eu fale dos refugiados, que eu volte a essa distância. Há muito para dizer. Mais ainda para fazer. É tudo tão imenso. E tão pouco. O contributo de cada um para cada refugiado é apenas devolver-lhe a dignidade que lhe foi tirada. Às vezes só por uns breves momentos. Mas já contou. Na conta da humanidade, já contou.

:::

I hid myself.  Fled away and hid myself. At home. People are searching me and I continue hidden and do not know what to do. Rehearsal responses. Test answers that are nothing more than empty pieces of words. Silence. The first time that i sat in the cafe near Skaramagas with Andreia, I spoke of refugees and she told me that there was one day that I was going to stop to call them refugees. I returned from Greece without refugees. I returned with names. People. Now what do I do? When i left i wanted to talk about refugees but now i returned full of people. i can not talk about their lives. They are my friends. Neither their names i feel i want to say. i feel the strong need to protect them and don't say a word to the ones that are waiting for my stories about them. I can talk about the camp, the squats, the volunteers, the organizations. I can talk about what is missing. The despair. The life full of nothing. The tomorrow that does not exist. The unbelievable reported to me as normality. And how hard it is to look again to the life that exists around me. The certainty that no words could be enough to anyone understand this reality without actually live it. But I can. I must. Repeat to exhaustion that they are people like us. They are people like us. They are people like us. They are people like us.

THEY ARE PEOPLE LIKE US.

No. They are not poor things. No. We should not feel sorry. No, they do not need mercy. They need respect. They need their dignity. And maybe that is why it is important that the word refugees remain. It is important that I speak of refugees, that I return to this distance. There is so much to be said. More still to be done. It's all so immense. And so little. The contribution of each of us to each refugee is just give him back the dignity that was taken from him. Sometimes only for a few brief moments. But already worth it. On the account of humanity, was worth it.



30 de agosto de 2016

kalispéra*

Podia sentar-me a escrever histórias sobre pessoas. Passo o dia a ouvi-las. E a perguntá-las. E a responder a minha história. E, sim. Sim, há histórias devastadoras. Sim, há histórias que ficam com frases a meio, frases que vão ficando cada vez mais baixinhas até que se deixa de ouvir a voz. Há frases curtas. De quem quer contar sem palavras. Conta com o corpo, com o olhar para o chão, com o gesto que faz com a mão. Mas também há histórias maravilhosas. Ou histórias tristes, contadas de forma maravilhosa. Pessoas maiores que o que lhes aconteceu. E continua a acontecer. Se vim aqui aprender alguma coisa, foi com certeza novos significados para palavras antigas. Dignidade. Respeito. Tolerância. Orgulho. Amor. Pessoa.
Podia sentar-me a contar histórias que fazem chorar, ou reflectir sobre prioridades, sobre orgulhos e vaidades, sobre desperdícios de tempo apenas e só porque as pessoas têm medo e vivem dentro dos seus medos. Medo de falhar, medo do ridículo, medo de se exporem, medo da rejeição. Medo. Medo. Medo. De viver.

Mas hoje não. Hoje quero registar este dia como o dia das pessoas livres de medos.
Hora de saída do campo. Começamos a anunciar que temos que ir. E os miúdos mais velhos, os "Tiaguinhos" como eu lhes chamo, começam a chegar-se e a meter conversa. São sempre os mesmos. Os que ajudam todo o dia os voluntários durante as actividades a tomar conta dos mais novos.
Escoltam-nos ao carro, numa atitude de total cavalheirismo e vão conversando pelo caminho. Fazem isto sem perguntar se podem ir, se queremos que eles vão. Simplesmente vão.
Hoje ensinaram-me a dizer boa noite em grego e quiseram aprender a dizer em português. Um deles sonha ir morar para Espanha. É lá que joga o maior do mundo, o Cristiano Ronaldo. Ele quer vê-lo a jogar e no fim vai conhecê-lo. Explica-me isto tudo com a maior da sacanice no olhar. Os olhos dele são de uma cor indefinida. Algures entre o azul, verde e avelã. Dá-me a mão, com os dedos entrelaçados, enquanto me explica que depois me vai visitar a Portugal. Do outro lado, vai o Jamal. Esse já o conheço há mais tempo. Ele sabe isso e já se comporta com essa segurança. Falamos da escola e de que tem que continuar a estudar, mas ele está mais interessado em saber até quando fico no campo e qual dia é que é mesmo o último. Quando chegamos ao destino, despedem-se com um high five. O Jamal ensaia um meio abraço e sorri. Sem medo. Sem medo de se dar.

*boa noite em grego.

27 de agosto de 2016

processos de logística emocional

Há dias que são efectivamente o primeiro do resto das nossas vidas. Hoje foi um desses. Tenho o coração cheio. E também vazio. Isto de um lado é nada e do outro é tudo. 
- Hey, my friend! What's your name?
- Ana.
- Ana in arabic means "me"!
- Where are you from?
- Portugal.
- Portugal? Good country?

Depois sorriem. E ficam ali ao pé. Já são amigos. Já somos todos do mesmo sítio. Somos de Skaramagas. Estamos todos ali e acho que nenhum de nós sabe bem porquê. O inglês é fraco, mas o silêncio e o olhar chega para estar ali a sermos amigos.

Hoje a Esra chorou quando outra miúda cantava uma canção. Era sobre a terra dela, no Iraque, e contava que tinham fugido de lá por causa da guerra. Tem 13 anos e saudades. Dá-me a mão, enquanto estamos sentadas no chão a ver o Skaramagas Got Talent. Do outro lado de mim está a Assmaa, que não me larga desde que nos conhecemos. É da Síria, tem 16 anos, fala inglês e percebe curdo. Vai-me contando o que se passa no palco. As canções são todas tristes? Pergunto-lhe. Ela sorri. Entretanto vem outro miúdo cantar e começam todos a acompanhar e ela contente diz-me ao ouvido "happy song about mother". Respondo-lhe: All the songs about mother are happy! E ela encosta a cabeça no meu ombro e diz - Yes!
Quando nos despedimos, agarra-me as mãos e pergunta-me: - You return tomorrow?

Não há barreiras nesta relação. Não há amanhã. Não há depois. Se é para fazer, faz-se agora. Se é para dizer, diz-se agora. Estão ávidos de se dar. Eles não querem receber nada. Querem dar-se todos. Sentam-se, encostam-se, dizem as palavras que sabem e quando não sabem palavras galgam para cima de nós e olham sem desviar o olhar. Os mais velhos, sentam-se ao lado e ali ficam. Os olhos deles são grandes demais para que lhes possa continuar a chamar refugiados. Sinto que podia ficar aqui para sempre e fazer isto todos os dias da minha vida. Sinto que não lhes dei nada mas eles receberam tudo. Na verdade, nem sei quem está a dar a quem. Não sei se eles têm noção do que me salvam a cada momento. Estamos na base da pirâmide e ali, onde não resta nada, acaba a haver o mais simples, o mais puro, o mais verdadeiro.
Voltamos para casa e o Ahmad pede-me amizade no facebook. Tínhamos estado juntos no mercado voltado para o mar que nasce ao fim do dia. Aceito. Pergunta-me no chat:
- You know who am I?
- Off course. You teached me how to say falafel.
Responde-me com emojis cheios de corações e depois um " you remember me".
Como posso eu esquecer?




25 de agosto de 2016

you are not alone

Sapatos. Caixas cheias de sapatos. As indicações eram simples. Era preciso tirar uma caixa qualquer da parede de caixas, abrir e depois organizar os sapatos por número. Se não estiverem em bom estado, vão para a caixa dos rejeitados. Caso contrário, limpar de possíveis acrescentos que as pessoas tivessem decidido dar: peúgas, papel a garantir que eles não perdiam a forma. O que parece uma boa ideia em casa de alguém, num campo de refugiados é apenas lixo. Tem que ser limpo no armazém antes da distribuição. Depois são novamente encaixotados por categoria: homem, mulher ou criança e, dentro de cada categoria, verão, inverno ou ténis. Fechar a caixa, por número do pé, e forrar nova parede, já dentro do armazém da organização. Precisamos de fazer stock. A distribuição só acontece quando garantidamente existirem sapatos para todos. Nada vai para o campo enquanto não houver um item para cada pessoa que esteja a morar lá.
Perguntei: Como decido se os rejeito?
Responderam-me: Se os desses aos teus filhos é porque estão bons.
Os meus filhos.
Ali estive, com mais quatro voluntários, por muitas horas, muito calor, muitas caixas.
A verdade é que não se pensa em nada. Faz-se.
Nalgumas caixas estão sapatos iguais aos dos meus filhos, noutras caixas estão sapatos novos ainda com etiqueta. Há também sapatos de festa, temos uma caixa especial para esses, porque esses sapatos não entram no campo. No party people.
Cerca das três da tarde, um grego que é um dos fiéis do armazém grita a plenos pulmões STOP-OUTSIDE! Nessa altura, estavam na sala apenas voluntários acabados de chegar e por isso seguimos os outros que foram aparecendo por trás de outras paredes de caixotes, imitando a sua normalidade e repetindo os gestos, observando antes de actuarmos.
No hall de entrada, os gregos que tomam conta deste antigo pavilhão construído para os Jogos Olímpicos, montaram umas mesas e meteram algumas cadeiras à volta. Não dá para todos e, por isso, eu e a Andreia sentamo-nos no chão, com o kit que nos deram. Era o almoço. Em caixas de plástico. Exactamente o mesmo que tinha sido distribuído no campo aos refugiados. É feito e distribuído pela marinha todos os dias. Abrimos as caixas e vamos fotografando todos os passos. Primeiro o kit como nos dão. Depois o kit espalhado no chão, mas ainda fechado, depois a caixa maior aberta. Abrimos e comemos. Em silêncio. Ao fim de uns minutos não aguento mais e pergunto à Andreia: Gostas?
Não aguentava mais não saber se ela gostava. Não aguentava mais lidar sozinha com aquilo. Na minha cabeça corria a cena familiar habitual de uma ida ao fast-food, onde nos dão sempre só dois tabuleiros com a comida toda amontoada e, quando me sento na mesa com os meus filhos, distribuo-a por cada um e quando acabo digo na brincadeira "comam e se não gostarem, mintam".
Se não gostarem, mintam.
Agora como em silêncio, imaginando-me a distribuir aquele kit aos meus filhos e a saber que não precisaria pedir que mentissem. Precisaria apenas que comessem. Eu comi. Por respeito aos que também comeram aquilo hoje.

Voltámos aos sapatos. Pego uma caixa de sapatos de homem. Noto papéis lá dentro e tiro-os para deitar fora. Ao fundo, um post it dobrado trazia uma mensagem para o próximo dono dos sapatos.
Dizia, tu podes estar a comer num caixa de plástico, tu podes estar a morar num tenda, tu podes não saber o que te vai acontecer nem amanhã nem daqui a um mês nem daqui a um ano, tu podes estar desesperado. Mas tu não estás sozinho. Eu tenho amor para te dar.

Voltei a dobrar o papel e meti-o dentro do sapato. É importante que a mensagem chegue ao destino. É importante que se saiba isso. Mais. Muito mais do que se faz, é o que se dá de nós.



22 de agosto de 2016

onde eu vou, vocês vão.

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.

(...)

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, excerto de Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya






19 de agosto de 2016

do melhor de mim

Há muitas razões que me fazem conseguir fazer estas coisas que faço. Estar 11 dias seguidos de férias noutro país e em casa de outras pessoas, em versão pelintra, não é nada fácil. Há muito desgaste e muito cansaço acumulado. Vemos muitas coisas, é verdade. Aprendemos muitas mais, além das que vemos. Aprendemos a conhecer-nos melhor, a ser mais tolerantes, a respeitar o tempo e o espaço do outro. Assim escrito parece bonito, mas também mete gritaria! Perguntam-me como sou capaz. Não sei muito bem. Muita estupidez natural. Pouca consciência do que estou a fazer. E depois, estes dois fiéis e incansáveis ajudantes sempre presentes e sempre atentos. Se estes dois não existissem como são, não íamos a lado nenhum nem fazíamos coisa nenhuma. Os becas. Aturam a mãezinha e aplacam o diabo dos caracóis amarelos todo o santo dia. As pessoas dizem que sou uma super mãe. Saibam pessoas, que ao lado de uma super mãe, há sempre super filhos.


25 de julho de 2016

se alguém me conseguir explicar o sentido disto, eu agradeço.

Ando-me a esforçar para encontrar sentido para as coisas, mas já desisti de tentar encontrar graça nas coisas. Para já, congelei essa função. Não sei bem porquê, ou não estou ainda capacitada para enfrentar o porquê, mas não me apetece nada do que faço. Faço porque, por alguma razão que alguém tem e me apresenta, tem que ser feito. Sem discussão. Sem vontade. Sem graça.
Aqui há uns tempos um amigo meu disse-me que quando vê alguém como eu a perder o encantamento é quando deixa de acreditar que o mundo pode ser melhor. Mas o problema é que eu já não acredito que o mundo possa ser melhor! Eu já não acredito que tudo não seja apenas um grande e ridículo absurdo.
A última coisa que senti que queria fazer, foi a ida à Grécia, como voluntária. No meio de toda a incerteza que é esta ida, no meio do tudo que é a minha agenda profissional, cheia de coisas que aparentemente são de uma importância extrema e inadiável, dos meus filhos e da nossa vida...no meio disto tudo, eu e a Andreia fomos construindo o nosso projecto. Trocámos milhares de mensagens e montámos a coisa. Ela já esteve na Grécia e tem a experiência desta incerteza. Vai-me dizendo para não me preocupar, vai tudo ganhar forma, vai tudo correr bem. Comprámos os bilhetes de avião e achamos que vamos para o campo de Skaramagkas, que é para onde estão a enviar as pessoas que estão no porto de Piraeus, em Atenas, uma vez que está a ser desmantelado. Dizem. Parece.
Agora temos que ver como conseguimos alojamento, o mais barato possível, porque os nossos custos saem do nosso bolso integralmente e são a viagem, o alojamento, a alimentação e as deslocações que tenhamos que fazer por lá. Andamos tão ocupadas em tentar perceber como vai acontecer, em manter a página do projecto para tentarmos angariar algum dinheiro para montar um centro escolar. Não está fácil. Estamos na silly season e as pessoas acham que os refugiados são uma sub-espécie. Um sucedâneo. Uma mentira. Terroristas. Que eles estão habituados. Os países deles sempre foram estranhos. Esta gente é esquisita. As pessoas acham que esta não é a causa delas, que devíamos apoiar os cães, os gatos, as nossas crianças, os velhos, as árvores, a calçada portuguesa ou a bola de Berlim com creme. Ou estar quietas. Palermices. Solidariedadezinha. 
Não quero ser ingrata. Não quero minimizar as pessoas que já nos ajudaram com palavras, partilhas e dinheiro. Pessoas que nos deram desde 5 a 100 euros, numa conta criada à pressa e com esperança. Que já tem perto de 400 euros, neste momento. Sei quem foram quase todas as pessoas que nos ajudaram. E, por isso, sei que são sempre as mesmas. As que também ajudam os cães, os gatos, as crianças, os velhos e por ai fora. A minha gratidão, admiração e humildade perante estas pessoas é gigante. A bondade é como o amor. Quem a tem nunca a esgota.

Ando tão ocupada, dizia eu, que aproveitei estar ocupada para não ter tempo de ir ver o que se passa na Grécia de verdade. A Andreia anda a tratar dessa parte e essa é a desculpa perfeita para não ir saber. Não ver. Não me envolver. Apenas fazer. Resolver as coisas que há para resolver.

Hoje, a Andreia publicou uma foto que tirou com uma família com quem criou laços quando esteve na Grécia em Maio. E, por mensagem privada, mandou-me uma foto deles, tirada há dois dias, no novo campo onde estão. Convido-vos a olhar para ambas, com algum vagar.


























Obrigada por o terem feito.
Dois meses separam estas fotos. Dois meses separam o olhar destas crianças. Reparem na esperança, luz e alegria que existe na primeira foto. Reparem no cansaço e falta de brilho na segunda. A mesma família, mas não os mesmos corações. As mesmas crianças, mas não a mesma infância.

Podia ser eu ali, rodeada pela Mia, pelo Tiago e pela Madalena. 
Podia ser um qualquer de nós, a querer que a vida continue a fazer sentido, a querer encontrar o caminho de volta ao caminho.

Mas, até ao momento, nós tivemos sorte.

14 de julho de 2016

preciso de férias antes de ir de férias

A pessoa está esgotada. A pessoa já não existe. Apenas se arrasta e tenta disfarçar o melhor possível. Mas a realidade é que estou burra, lenta, sofrida. Por favor, acabem com este sofrimento. Este mês de Julho tem sido o pesadelo. Estou metida em vários projectos importantes e exigentes que têm que ficar em estado quase terminado este mês e não consigo mais.
Entretanto caiu-me a ficha dos planos que fiz para o Verão e percebi que me esqueci que tenho um corpinho de quase 40, maltratado como o raio, e a mania que tenho 20. Ou seja, daqui a duas semanas fico de férias, com eventos sucessivos e em meados de Setembro, recomeço a trabalhar como se não tivesse feito nada do que vou fazer. E só volto a ter férias em Agosto de 2017!
A minha planificação, ou deverei dizer a minha ânsia de fazer tudo e mais um par de botas, fez-me decidir chegar num dia de uma road trip em couchsurfing com os miúdos e embarcar para a Grécia como voluntária no dia a seguir. Alguém me dê com uma raquete de ténis nas ventas com urgência.
Hoje soube que o meu pedido de participação no projecto de voluntariado foi aceite pela minha escola e vinha tão contente escada acima para o meu gabinete, feliz da vida porque assim vou conseguir fazer uma coisa que quero mesmo muito muito muito fazer, que só quando a fui meter no meu calendário é que percebi que tinha todos os dias com uma coisa que me exige muito ou fisicamente ou emocionalmente. Ou ambas. Porra pá.
Anda a pessoa a mandar vir consigo própria porque não sabe dizer não, e com o mundo porque o mundo estica-se muito com a pessoa e afinal chega às férias e faz exactamente a mesma coisa. Entope-se de tudo e mais alguma coisa.
Fico a pensar, será isto defeito ou feitio?