Podia sentar-me a escrever histórias sobre pessoas. Passo o dia a ouvi-las. E a perguntá-las. E a responder a minha história. E, sim. Sim, há histórias devastadoras. Sim, há histórias que ficam com frases a meio, frases que vão ficando cada vez mais baixinhas até que se deixa de ouvir a voz. Há frases curtas. De quem quer contar sem palavras. Conta com o corpo, com o olhar para o chão, com o gesto que faz com a mão. Mas também há histórias maravilhosas. Ou histórias tristes, contadas de forma maravilhosa. Pessoas maiores que o que lhes aconteceu. E continua a acontecer. Se vim aqui aprender alguma coisa, foi com certeza novos significados para palavras antigas. Dignidade. Respeito. Tolerância. Orgulho. Amor. Pessoa.
Podia sentar-me a contar histórias que fazem chorar, ou reflectir sobre prioridades, sobre orgulhos e vaidades, sobre desperdícios de tempo apenas e só porque as pessoas têm medo e vivem dentro dos seus medos. Medo de falhar, medo do ridículo, medo de se exporem, medo da rejeição. Medo. Medo. Medo. De viver.
Mas hoje não. Hoje quero registar este dia como o dia das pessoas livres de medos.
Hora de saída do campo. Começamos a anunciar que temos que ir. E os miúdos mais velhos, os "Tiaguinhos" como eu lhes chamo, começam a chegar-se e a meter conversa. São sempre os mesmos. Os que ajudam todo o dia os voluntários durante as actividades a tomar conta dos mais novos.
Escoltam-nos ao carro, numa atitude de total cavalheirismo e vão conversando pelo caminho. Fazem isto sem perguntar se podem ir, se queremos que eles vão. Simplesmente vão.
Hoje ensinaram-me a dizer boa noite em grego e quiseram aprender a dizer em português. Um deles sonha ir morar para Espanha. É lá que joga o maior do mundo, o Cristiano Ronaldo. Ele quer vê-lo a jogar e no fim vai conhecê-lo. Explica-me isto tudo com a maior da sacanice no olhar. Os olhos dele são de uma cor indefinida. Algures entre o azul, verde e avelã. Dá-me a mão, com os dedos entrelaçados, enquanto me explica que depois me vai visitar a Portugal. Do outro lado, vai o Jamal. Esse já o conheço há mais tempo. Ele sabe isso e já se comporta com essa segurança. Falamos da escola e de que tem que continuar a estudar, mas ele está mais interessado em saber até quando fico no campo e qual dia é que é mesmo o último. Quando chegamos ao destino, despedem-se com um high five. O Jamal ensaia um meio abraço e sorri. Sem medo. Sem medo de se dar.
*boa noite em grego.
30 de agosto de 2016
27 de agosto de 2016
processos de logística emocional
Há dias que são efectivamente o primeiro do resto das nossas vidas. Hoje foi um desses. Tenho o coração cheio. E também vazio. Isto de um lado é nada e do outro é tudo.
- Hey, my friend! What's your name?- Ana.
- Ana in arabic means "me"!
- Where are you from?
- Portugal.
- Portugal? Good country?
Depois sorriem. E ficam ali ao pé. Já são amigos. Já somos todos do mesmo sítio. Somos de Skaramagas. Estamos todos ali e acho que nenhum de nós sabe bem porquê. O inglês é fraco, mas o silêncio e o olhar chega para estar ali a sermos amigos.
Hoje a Esra chorou quando outra miúda cantava uma canção. Era sobre a terra dela, no Iraque, e contava que tinham fugido de lá por causa da guerra. Tem 13 anos e saudades. Dá-me a mão, enquanto estamos sentadas no chão a ver o Skaramagas Got Talent. Do outro lado de mim está a Assmaa, que não me larga desde que nos conhecemos. É da Síria, tem 16 anos, fala inglês e percebe curdo. Vai-me contando o que se passa no palco. As canções são todas tristes? Pergunto-lhe. Ela sorri. Entretanto vem outro miúdo cantar e começam todos a acompanhar e ela contente diz-me ao ouvido "happy song about mother". Respondo-lhe: All the songs about mother are happy! E ela encosta a cabeça no meu ombro e diz - Yes!
Quando nos despedimos, agarra-me as mãos e pergunta-me: - You return tomorrow?
Não há barreiras nesta relação. Não há amanhã. Não há depois. Se é para fazer, faz-se agora. Se é para dizer, diz-se agora. Estão ávidos de se dar. Eles não querem receber nada. Querem dar-se todos. Sentam-se, encostam-se, dizem as palavras que sabem e quando não sabem palavras galgam para cima de nós e olham sem desviar o olhar. Os mais velhos, sentam-se ao lado e ali ficam. Os olhos deles são grandes demais para que lhes possa continuar a chamar refugiados. Sinto que podia ficar aqui para sempre e fazer isto todos os dias da minha vida. Sinto que não lhes dei nada mas eles receberam tudo. Na verdade, nem sei quem está a dar a quem. Não sei se eles têm noção do que me salvam a cada momento. Estamos na base da pirâmide e ali, onde não resta nada, acaba a haver o mais simples, o mais puro, o mais verdadeiro.
Voltamos para casa e o Ahmad pede-me amizade no facebook. Tínhamos estado juntos no mercado voltado para o mar que nasce ao fim do dia. Aceito. Pergunta-me no chat:
- You know who am I?
- Off course. You teached me how to say falafel.
Responde-me com emojis cheios de corações e depois um " you remember me".
- You know who am I?
- Off course. You teached me how to say falafel.
Responde-me com emojis cheios de corações e depois um " you remember me".
Como posso eu esquecer?
25 de agosto de 2016
you are not alone
Sapatos. Caixas cheias de sapatos. As indicações eram simples. Era preciso tirar uma caixa qualquer da parede de caixas, abrir e depois organizar os sapatos por número. Se não estiverem em bom estado, vão para a caixa dos rejeitados. Caso contrário, limpar de possíveis acrescentos que as pessoas tivessem decidido dar: peúgas, papel a garantir que eles não perdiam a forma. O que parece uma boa ideia em casa de alguém, num campo de refugiados é apenas lixo. Tem que ser limpo no armazém antes da distribuição. Depois são novamente encaixotados por categoria: homem, mulher ou criança e, dentro de cada categoria, verão, inverno ou ténis. Fechar a caixa, por número do pé, e forrar nova parede, já dentro do armazém da organização. Precisamos de fazer stock. A distribuição só acontece quando garantidamente existirem sapatos para todos. Nada vai para o campo enquanto não houver um item para cada pessoa que esteja a morar lá.
Perguntei: Como decido se os rejeito?
Responderam-me: Se os desses aos teus filhos é porque estão bons.
Os meus filhos.
Ali estive, com mais quatro voluntários, por muitas horas, muito calor, muitas caixas.
A verdade é que não se pensa em nada. Faz-se.
Nalgumas caixas estão sapatos iguais aos dos meus filhos, noutras caixas estão sapatos novos ainda com etiqueta. Há também sapatos de festa, temos uma caixa especial para esses, porque esses sapatos não entram no campo. No party people.
Cerca das três da tarde, um grego que é um dos fiéis do armazém grita a plenos pulmões STOP-OUTSIDE! Nessa altura, estavam na sala apenas voluntários acabados de chegar e por isso seguimos os outros que foram aparecendo por trás de outras paredes de caixotes, imitando a sua normalidade e repetindo os gestos, observando antes de actuarmos.
No hall de entrada, os gregos que tomam conta deste antigo pavilhão construído para os Jogos Olímpicos, montaram umas mesas e meteram algumas cadeiras à volta. Não dá para todos e, por isso, eu e a Andreia sentamo-nos no chão, com o kit que nos deram. Era o almoço. Em caixas de plástico. Exactamente o mesmo que tinha sido distribuído no campo aos refugiados. É feito e distribuído pela marinha todos os dias. Abrimos as caixas e vamos fotografando todos os passos. Primeiro o kit como nos dão. Depois o kit espalhado no chão, mas ainda fechado, depois a caixa maior aberta. Abrimos e comemos. Em silêncio. Ao fim de uns minutos não aguento mais e pergunto à Andreia: Gostas?
Não aguentava mais não saber se ela gostava. Não aguentava mais lidar sozinha com aquilo. Na minha cabeça corria a cena familiar habitual de uma ida ao fast-food, onde nos dão sempre só dois tabuleiros com a comida toda amontoada e, quando me sento na mesa com os meus filhos, distribuo-a por cada um e quando acabo digo na brincadeira "comam e se não gostarem, mintam".
Se não gostarem, mintam.
Agora como em silêncio, imaginando-me a distribuir aquele kit aos meus filhos e a saber que não precisaria pedir que mentissem. Precisaria apenas que comessem. Eu comi. Por respeito aos que também comeram aquilo hoje.
Voltámos aos sapatos. Pego uma caixa de sapatos de homem. Noto papéis lá dentro e tiro-os para deitar fora. Ao fundo, um post it dobrado trazia uma mensagem para o próximo dono dos sapatos.
Dizia, tu podes estar a comer num caixa de plástico, tu podes estar a morar num tenda, tu podes não saber o que te vai acontecer nem amanhã nem daqui a um mês nem daqui a um ano, tu podes estar desesperado. Mas tu não estás sozinho. Eu tenho amor para te dar.
Voltei a dobrar o papel e meti-o dentro do sapato. É importante que a mensagem chegue ao destino. É importante que se saiba isso. Mais. Muito mais do que se faz, é o que se dá de nós.
Perguntei: Como decido se os rejeito?
Responderam-me: Se os desses aos teus filhos é porque estão bons.
Os meus filhos.
Ali estive, com mais quatro voluntários, por muitas horas, muito calor, muitas caixas.
A verdade é que não se pensa em nada. Faz-se.
Nalgumas caixas estão sapatos iguais aos dos meus filhos, noutras caixas estão sapatos novos ainda com etiqueta. Há também sapatos de festa, temos uma caixa especial para esses, porque esses sapatos não entram no campo. No party people.
Cerca das três da tarde, um grego que é um dos fiéis do armazém grita a plenos pulmões STOP-OUTSIDE! Nessa altura, estavam na sala apenas voluntários acabados de chegar e por isso seguimos os outros que foram aparecendo por trás de outras paredes de caixotes, imitando a sua normalidade e repetindo os gestos, observando antes de actuarmos.
No hall de entrada, os gregos que tomam conta deste antigo pavilhão construído para os Jogos Olímpicos, montaram umas mesas e meteram algumas cadeiras à volta. Não dá para todos e, por isso, eu e a Andreia sentamo-nos no chão, com o kit que nos deram. Era o almoço. Em caixas de plástico. Exactamente o mesmo que tinha sido distribuído no campo aos refugiados. É feito e distribuído pela marinha todos os dias. Abrimos as caixas e vamos fotografando todos os passos. Primeiro o kit como nos dão. Depois o kit espalhado no chão, mas ainda fechado, depois a caixa maior aberta. Abrimos e comemos. Em silêncio. Ao fim de uns minutos não aguento mais e pergunto à Andreia: Gostas?
Não aguentava mais não saber se ela gostava. Não aguentava mais lidar sozinha com aquilo. Na minha cabeça corria a cena familiar habitual de uma ida ao fast-food, onde nos dão sempre só dois tabuleiros com a comida toda amontoada e, quando me sento na mesa com os meus filhos, distribuo-a por cada um e quando acabo digo na brincadeira "comam e se não gostarem, mintam".
Se não gostarem, mintam.
Agora como em silêncio, imaginando-me a distribuir aquele kit aos meus filhos e a saber que não precisaria pedir que mentissem. Precisaria apenas que comessem. Eu comi. Por respeito aos que também comeram aquilo hoje.
Voltámos aos sapatos. Pego uma caixa de sapatos de homem. Noto papéis lá dentro e tiro-os para deitar fora. Ao fundo, um post it dobrado trazia uma mensagem para o próximo dono dos sapatos.
Dizia, tu podes estar a comer num caixa de plástico, tu podes estar a morar num tenda, tu podes não saber o que te vai acontecer nem amanhã nem daqui a um mês nem daqui a um ano, tu podes estar desesperado. Mas tu não estás sozinho. Eu tenho amor para te dar.
Voltei a dobrar o papel e meti-o dentro do sapato. É importante que a mensagem chegue ao destino. É importante que se saiba isso. Mais. Muito mais do que se faz, é o que se dá de nós.
22 de agosto de 2016
onde eu vou, vocês vão.
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
(...)
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objeto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena, excerto de Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya
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19 de agosto de 2016
do melhor de mim
Há muitas razões que me fazem conseguir fazer estas coisas que faço. Estar 11 dias seguidos de férias noutro país e em casa de outras pessoas, em versão pelintra, não é nada fácil. Há muito desgaste e muito cansaço acumulado. Vemos muitas coisas, é verdade. Aprendemos muitas mais, além das que vemos. Aprendemos a conhecer-nos melhor, a ser mais tolerantes, a respeitar o tempo e o espaço do outro. Assim escrito parece bonito, mas também mete gritaria! Perguntam-me como sou capaz. Não sei muito bem. Muita estupidez natural. Pouca consciência do que estou a fazer. E depois, estes dois fiéis e incansáveis ajudantes sempre presentes e sempre atentos. Se estes dois não existissem como são, não íamos a lado nenhum nem fazíamos coisa nenhuma. Os becas. Aturam a mãezinha e aplacam o diabo dos caracóis amarelos todo o santo dia. As pessoas dizem que sou uma super mãe. Saibam pessoas, que ao lado de uma super mãe, há sempre super filhos.
25 de julho de 2016
se alguém me conseguir explicar o sentido disto, eu agradeço.
Ando-me a esforçar para encontrar sentido para as coisas, mas já desisti de tentar encontrar graça nas coisas. Para já, congelei essa função. Não sei bem porquê, ou não estou ainda capacitada para enfrentar o porquê, mas não me apetece nada do que faço. Faço porque, por alguma razão que alguém tem e me apresenta, tem que ser feito. Sem discussão. Sem vontade. Sem graça.
Obrigada por o terem feito.
Aqui há uns tempos um amigo meu disse-me que quando vê alguém como eu a perder o encantamento é quando deixa de acreditar que o mundo pode ser melhor. Mas o problema é que eu já não acredito que o mundo possa ser melhor! Eu já não acredito que tudo não seja apenas um grande e ridículo absurdo.
A última coisa que senti que queria fazer, foi a ida à Grécia, como voluntária. No meio de toda a incerteza que é esta ida, no meio do tudo que é a minha agenda profissional, cheia de coisas que aparentemente são de uma importância extrema e inadiável, dos meus filhos e da nossa vida...no meio disto tudo, eu e a Andreia fomos construindo o nosso projecto. Trocámos milhares de mensagens e montámos a coisa. Ela já esteve na Grécia e tem a experiência desta incerteza. Vai-me dizendo para não me preocupar, vai tudo ganhar forma, vai tudo correr bem. Comprámos os bilhetes de avião e achamos que vamos para o campo de Skaramagkas, que é para onde estão a enviar as pessoas que estão no porto de Piraeus, em Atenas, uma vez que está a ser desmantelado. Dizem. Parece.
Agora temos que ver como conseguimos alojamento, o mais barato possível, porque os nossos custos saem do nosso bolso integralmente e são a viagem, o alojamento, a alimentação e as deslocações que tenhamos que fazer por lá. Andamos tão ocupadas em tentar perceber como vai acontecer, em manter a página do projecto para tentarmos angariar algum dinheiro para montar um centro escolar. Não está fácil. Estamos na silly season e as pessoas acham que os refugiados são uma sub-espécie. Um sucedâneo. Uma mentira. Terroristas. Que eles estão habituados. Os países deles sempre foram estranhos. Esta gente é esquisita. As pessoas acham que esta não é a causa delas, que devíamos apoiar os cães, os gatos, as nossas crianças, os velhos, as árvores, a calçada portuguesa ou a bola de Berlim com creme. Ou estar quietas. Palermices. Solidariedadezinha.
Agora temos que ver como conseguimos alojamento, o mais barato possível, porque os nossos custos saem do nosso bolso integralmente e são a viagem, o alojamento, a alimentação e as deslocações que tenhamos que fazer por lá. Andamos tão ocupadas em tentar perceber como vai acontecer, em manter a página do projecto para tentarmos angariar algum dinheiro para montar um centro escolar. Não está fácil. Estamos na silly season e as pessoas acham que os refugiados são uma sub-espécie. Um sucedâneo. Uma mentira. Terroristas. Que eles estão habituados. Os países deles sempre foram estranhos. Esta gente é esquisita. As pessoas acham que esta não é a causa delas, que devíamos apoiar os cães, os gatos, as nossas crianças, os velhos, as árvores, a calçada portuguesa ou a bola de Berlim com creme. Ou estar quietas. Palermices. Solidariedadezinha.
Não quero ser ingrata. Não quero minimizar as pessoas que já nos ajudaram com palavras, partilhas e dinheiro. Pessoas que nos deram desde 5 a 100 euros, numa conta criada à pressa e com esperança. Que já tem perto de 400 euros, neste momento. Sei quem foram quase todas as pessoas que nos ajudaram. E, por isso, sei que são sempre as mesmas. As que também ajudam os cães, os gatos, as crianças, os velhos e por ai fora. A minha gratidão, admiração e humildade perante estas pessoas é gigante. A bondade é como o amor. Quem a tem nunca a esgota.
Ando tão ocupada, dizia eu, que aproveitei estar ocupada para não ter tempo de ir ver o que se passa na Grécia de verdade. A Andreia anda a tratar dessa parte e essa é a desculpa perfeita para não ir saber. Não ver. Não me envolver. Apenas fazer. Resolver as coisas que há para resolver.
Hoje, a Andreia publicou uma foto que tirou com uma família com quem criou laços quando esteve na Grécia em Maio. E, por mensagem privada, mandou-me uma foto deles, tirada há dois dias, no novo campo onde estão. Convido-vos a olhar para ambas, com algum vagar.
Obrigada por o terem feito.
Dois meses separam estas fotos. Dois meses separam o olhar destas crianças. Reparem na esperança, luz e alegria que existe na primeira foto. Reparem no cansaço e falta de brilho na segunda. A mesma família, mas não os mesmos corações. As mesmas crianças, mas não a mesma infância.
Podia ser eu ali, rodeada pela Mia, pelo Tiago e pela Madalena.
Podia ser um qualquer de nós, a querer que a vida continue a fazer sentido, a querer encontrar o caminho de volta ao caminho.
Mas, até ao momento, nós tivemos sorte.
14 de julho de 2016
preciso de férias antes de ir de férias
A pessoa está esgotada. A pessoa já não existe. Apenas se arrasta e tenta disfarçar o melhor possível. Mas a realidade é que estou burra, lenta, sofrida. Por favor, acabem com este sofrimento. Este mês de Julho tem sido o pesadelo. Estou metida em vários projectos importantes e exigentes que têm que ficar em estado quase terminado este mês e não consigo mais.
Entretanto caiu-me a ficha dos planos que fiz para o Verão e percebi que me esqueci que tenho um corpinho de quase 40, maltratado como o raio, e a mania que tenho 20. Ou seja, daqui a duas semanas fico de férias, com eventos sucessivos e em meados de Setembro, recomeço a trabalhar como se não tivesse feito nada do que vou fazer. E só volto a ter férias em Agosto de 2017!
A minha planificação, ou deverei dizer a minha ânsia de fazer tudo e mais um par de botas, fez-me decidir chegar num dia de uma road trip em couchsurfing com os miúdos e embarcar para a Grécia como voluntária no dia a seguir. Alguém me dê com uma raquete de ténis nas ventas com urgência.
Hoje soube que o meu pedido de participação no projecto de voluntariado foi aceite pela minha escola e vinha tão contente escada acima para o meu gabinete, feliz da vida porque assim vou conseguir fazer uma coisa que quero mesmo muito muito muito fazer, que só quando a fui meter no meu calendário é que percebi que tinha todos os dias com uma coisa que me exige muito ou fisicamente ou emocionalmente. Ou ambas. Porra pá.
Anda a pessoa a mandar vir consigo própria porque não sabe dizer não, e com o mundo porque o mundo estica-se muito com a pessoa e afinal chega às férias e faz exactamente a mesma coisa. Entope-se de tudo e mais alguma coisa.
Fico a pensar, será isto defeito ou feitio?
Entretanto caiu-me a ficha dos planos que fiz para o Verão e percebi que me esqueci que tenho um corpinho de quase 40, maltratado como o raio, e a mania que tenho 20. Ou seja, daqui a duas semanas fico de férias, com eventos sucessivos e em meados de Setembro, recomeço a trabalhar como se não tivesse feito nada do que vou fazer. E só volto a ter férias em Agosto de 2017!
A minha planificação, ou deverei dizer a minha ânsia de fazer tudo e mais um par de botas, fez-me decidir chegar num dia de uma road trip em couchsurfing com os miúdos e embarcar para a Grécia como voluntária no dia a seguir. Alguém me dê com uma raquete de ténis nas ventas com urgência.
Hoje soube que o meu pedido de participação no projecto de voluntariado foi aceite pela minha escola e vinha tão contente escada acima para o meu gabinete, feliz da vida porque assim vou conseguir fazer uma coisa que quero mesmo muito muito muito fazer, que só quando a fui meter no meu calendário é que percebi que tinha todos os dias com uma coisa que me exige muito ou fisicamente ou emocionalmente. Ou ambas. Porra pá.
Anda a pessoa a mandar vir consigo própria porque não sabe dizer não, e com o mundo porque o mundo estica-se muito com a pessoa e afinal chega às férias e faz exactamente a mesma coisa. Entope-se de tudo e mais alguma coisa.
Fico a pensar, será isto defeito ou feitio?
12 de junho de 2016
das outras mães como nós
Tenho vindo a pensar cada vez mais nas Anas desta vida. Mulheres como eu. Que têm sonhos, aspirações e que querem concretizar. Seja a vida delas, seja a dos filhos, da família. Mas não podem. Não conseguem. Não consigo entender o arbítrio da fatalidade. Porque me calhou a mim o privilégio de ter uma vida cheia de possibilidades, em que as questões que enfrento são sempre de um nível social, cultural, familiar mais elevado, enquanto que há mulheres que têm uma vida cheia de contrariedades, em que as questões que enfrentam são se vão ter comida para dar aos filhos, se vão ter segurança suficiente para uma noite sossegada. Se vão, sequer, sobreviver. Quanto mais penso nisto, menos compreendo a ordem das coisas. E quanto mais penso nisso menos compreendo porque as Anas, como eu, fazem tão pouco para as Anas que estão hoje algures na Grécia, por exemplo, sem sequer saberem como vão fazer acontecer o resto deste dia. Penso que não se consegue mudar o mundo. Mas consegue-se mudar-nos a nós. Consegue-se transformar a vida, assumindo a responsabilidade que temos perante quem pode menos, porque por alguma razão, assim foi o seu destino. Quero que a minha vida seja útil. Quero usar-me do privilégio que tenho de ter e poder fazer pelas outras mulheres que podiam ser como eu, mas não são. Quando algo não nos sai da cabeça é porque chegou a hora de o concretizar...
7 de junho de 2016
socorro, tenho um (dois) filho adolescente!
Discutir com filhos é uma das piores coisas do mundo. Reformulo, discutir com filhos adolescentes é uma das maiores dores de cabeça que uma mãe pode experimentar. É que uma pessoa tenta compreender, respeitar a individualidade, uma pessoa tenta promover sempre a liberdade e responsabilidade e confiar que vai correr bem, porque eles têm os valores certos no seu core, mas, caramba pá! Há dias mesmo complicados, há fases mesmo nubladas em que uns dias parece que sim, que as coisas até vão correr bem e é preciso é relativizar e deixar o tempo colaborar nesta tarefa, mas depois existem outros de total desespero e perda de controlo da situação. Porque a pessoa também se cansa. Porque a pessoa também é pessoa, pronto. Mas depois (e antes e durante a discussão) a mãe tem o coração pequenino e escuro, porque sabe, vê, sente o caos que vai naquela pessoa que já não é pequena mas também ainda não é grande. Até onde pode ir a compreensão e onde deve começar (continuar?) o estabelecimento de limites? Quando começa a auto-disciplina a ser uma coisa autónoma? E porque raio, complicam eles tanto as coisas? Tenho sempre medo de os perder, tenho sempre presente o terror de um dia o laço de quebrar. Porque isso acontece! Uniões familiares fortes e felizes, que um dia acordam e o filho é um continente e a mãe outro continente e já só há contactos sem abraços. Tenho pensado ultimamente muito nesta questão e tenho tentado ler sobre o assunto e os melhores conselhos, das pessoas especialistas na matéria, são sempre na lógica de saber manter o equilíbrio entre estar e deixar ir. Mas isso é tão difícil de fazer! Ter que ter essa sensibilidade para a leitura correcta dos momentos, tendo todo o resto da vida a correr! Tendo três filhos únicos em disputa por tempo e atenção, mais concentrados em lutas territoriais constantes, do que em aproveitar o momento... Às vezes tenho clara noção que não vi o momento, não reconheci que era ali, naquela conversa, naquele instante. E depois o que fica é a percepção errada. Fica a mágoa. Penalizo-me sempre por isso. Caramba! Eu pensava que dormir mal, mudar fraldas e ouvir alguém a berrar horas infinitas era a coisa mais difícil do mundo. Mas não. Bem-vinda, cara Ana, à adolescência! Só não percebo porque fazem os serviços de saúde tantos cursos de preparação para o parto, uma coisa que dura no máximo 24 horas, e zero cursos de pedagogia, psicologia e gestão de relacionamentos.
4 de junho de 2016
baile de gala
Durante todo o dia pareceu ser um dia muito importante. E era. Baile de finalistas da princesa cá de casa que teve direito a tudo e mais alguma coisa, desde cenas de gaja a mimos de todas as pessoas que a quiseram ver antes de ir para o baile. Dias especiais.
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